segunda-feira, 1 de junho de 2009

"Dói internar um filho. Às vezes não há outro jeito"

O poeta Ferreira Gullar, pai de dois esquizofrênicos, levanta uma das maiores controvérsias da psiquiatria: o que fazer com doentes mentais em estado grave?

Quando o escritor Ferreira Gullar publicou em 1999 o poema “Internação” (leia ao lado), já era um veterano na convivência com doentes mentais. Quem fez a observação sobre o vento foi Paulo, seu filho mais velho, que hoje tem 50 anos. Ele sofre de esquizofrenia, doença caracterizada, entre outras coisas, por dificuldade em distinguir o real do imaginado. Desde os anos 70, Gullar tenta administrar a moléstia. Fazia o mesmo com Marcos, o filho dois anos mais jovem, que também tinha esquizofrenia e morreu de cirrose hepática em 1992. Remédios modernos permitem que pessoas como Paulo passem longos períodos em estado praticamente normal. Sem alucinações, sem agitação, sem agressividade. Mas o tratamento só funciona se o doente tomar os medicamentos antipsicóticos todos os dias e na dose certa. Isso nem sempre acontece. O resultado são os surtos, quando o paciente se torna quase incontrolável.

Pode cometer suicídio ou agredir quem está por perto. Nesses momentos, esses doentes costumam precisar de internação. “Dói ter de internar um filho”, diz Gullar, hoje com 78 anos. “Às vezes, não há outro jeito.”

No Brasil, estima-se que haja 17 milhões de pessoas com algum transtorno mental grave – como esquizofrenia, depressão, transtorno bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo. Em algum momento, eles podem precisar de um hospital psiquiátrico. Encontrar uma vaga, porém, tornou-se uma tarefa difícil.

Nos últimos 20 anos, quase 70% dos leitos psiquiátricos do país foram fechados. Sem conseguir quem os ajude a cuidar dos doentes, pais e irmãos afirmam ter várias dimensões de sua vida pessoal comprometidas, dos compromissos de trabalho às amizades. É o que revela uma pesquisa feita em 2006 em Minas Gerais com 150 famílias com pessoas atendidas nos Centros de Referência em Saúde Mental. Em muitos casos, os doentes em surto fogem sem deixar rastro. Podem acabar embaixo dos viadutos. O aumento da população de rua nas grandes cidades não é fruto exclusivo da desigualdade social. Uma pesquisa feita em 1999 com moradores de rua em Juiz de Fora conclui que 10% deles eram psicóticos sem assistência.

“As famílias, principalmente as que não têm recursos, não têm mais onde pôr seus filhos”, diz Gullar. “Eles viram mendigos loucos, mendigos delirantes que podem agredir alguém. O Ministério da Saúde tem de olhar para isso.” Gullar decidiu expor publicamente um problema que não é só seu. Nas últimas semanas, escreveu três artigos sobre o assunto em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. “Não pretendo liderar movimento algum. Sou um cidadão que tem uma tribuna e pode falar sobre o que está errado.”

Ele afirmou, no primeiro texto, que a campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia. Foi o suficiente para fazer eclodir uma controvérsia latente. Nos dias seguintes, dezenas de leitores enviaram cartas ao jornal. Representavam dois grupos. O primeiro, em apoio a Gullar, aponta as razões fisiológicas da doença mental e considera que a internação é um instrumento necessário nos momentos de surto.

O segundo, contra ele, afirma que os doentes devem ser atendidos em Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Nesses locais, o paciente recebe medicação e acompanhamento semanal. A ideia é atendê-lo sem retirá-lo do convívio da família e da comunidade. Para esse grupo, mesmo nos momentos de crise, o doente deve ser atendido nos Caps. Ele passaria alguns dias internado na própria instituição (ou em hospitais comuns, com alas psiquiátricas) e depois voltaria para casa. “O hospital é um lugar de isolamento, funciona como uma prisão. As pessoas vão e não voltam”, diz Humberto Verona, presidente do Conselho Federal de Psicologia. “Algumas famílias querem que a pessoa fique internada. É a ideia da instituição como depósito.”

Gullar se ofende com comentários como esse, que ouve desde o final dos anos 80, quando a reforma psiquiátrica que levou à situação atual começou a ser discutida no Brasil. “Essas pessoas não sabem o que é conviver com esquizofrênicos, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Elas têm a audácia de fingir que amam mais a meus filhos do que eu.”

6 comentários:

Paciente IRS ® disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paciente IRS ® disse...

Sou paciente psiquiátrica do modelo hospitalocêntrico público há mais de uma década e a problemática de Gullar é problema meu, também.
Hospital Psiquiátrico é para quem precisa, Caps é pra quem quer...

Equipe Paciente Psiquiátrico disse...

Exatamente! Aí está o ponto.

Alessandra seu nome? Dei uma olhada no "Passagens do Alto", excelente postagens!

mara disse...

Gente a realidade é outra, CAPS é para quem quer se tratar. Surto psicótico é outra coisa, ninguém obriga um esquizofrênico a se tratar se ele não quiser. O problema é imenso, só quem passa por ele, me desculpe, poderá opinar. Sou mãe de um esquizofrênico e sei o quanto já fiz para não interná-lo. (já o fiz por duas vezes). Há casos e casos, os hospitais psiquiátricos teem que ser revistos, melhorados, pacientes separados por nível de doença, inteligência e outras coisas... e ampliados para casos complicados na hora de um surto. Isso é verdade mesmo e uma verdade muito séria. O preconceito tem que ser eliminado e a realidade exercida. Por favor, pelo amor de Deus. Os políticos não estão nem ai para hospitais psiquiátricos, afinal, o sujeito surtado e internado não vota.
Vamos encarar essa realidade e socorrer com muita atenção e caridade essa polêmica da doença mental. Ela tá ai, não dá só no vizinho não. Inclusive conheço "Coordenadores de Saúde Mental" que não teem noção nenhuma da realidade de um surto psicótico.

Obrigada

Mara Rúbia

Unknown disse...

Gullar: Também temos 2 filhos esquizofrênicos. Rapaz de 26 e moça de 28. Só eu sei o que já passei. A moça é terrivel. Ninguém segura ela em casa. Vai pra rua pede dinheiro e toma café. Volta pra casa muito agressiva, pois o café corta o efeito da medicação que ela toma. Já pedi ao médico para aumentar, mas ele diz que está no limite e não pode. Minha ciade não tem CAPS nem leito psiquiátrico. As vezes pegam ela na rua e levam de volta para casa e criam o maior caso. Como se eu pudesse fazer alguma coisa a respeito. Se tivesse lugar para interna-la, eu internaria. Até porque, seria mais seguro para ela mesma. Tenho certeza de que um dia vai voltar pra casa com Aids, ou coisa pior, se é que se pode pensar em algo pior. O primeiro surto dela foi a 12 anos atrás. E tem gente que ainda quer me julgar!!!

Anônimo disse...

Caros, tenho um irmao esquisofrenico, toda nossa familia sofre com esta doenca, hoje ele esta em crise , mistura os remedios com alcool. Sofremos muito, precisamosde um lugar para interna-lo. O que fazer?